Notícias

Eleições 2026: IBRAF mapeia propostas dos presidenciáveis para a África e a política externa brasileira

O Instituto Brasil África realizou um levantamento das propostas relacionadas ao continente africano e à política externa brasileira apresentadas pelos candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026. Foram analisados os programas de governo dos 13 presidenciáveis, buscando identificar como cada candidatura aborda a política externa e, especialmente, qual espaço a África ocupa em suas propostas.

O objetivo é compreender a visão de cada candidatura sobre o papel do Brasil no cenário internacional, identificar suas prioridades e metas para a relação com a África e o tipo de parceria proposto — comercial, econômica, diplomática, geopolítica, de cooperação Sul-Sul, entre outras.

Assim, o Instituto pretende contribuir para qualificar o debate da sociedade sobre o futuro da política externa brasileira, identificando, a partir dos programas de governo, as prioridades de cada candidatura para a atuação internacional do Brasil.

O que os candidatos propõem para a política externa e a África

Lula (PT) propõe explicitamente “aprofundar” as relações com a África, articulando essa aproximação ao Atlântico Sul, à CPLP, à União Africana e à Cooperação Sul-Sul, além da ampliação da cooperação técnica, especialmente para fortalecer sistemas de segurança alimentar no continente. O programa de Lula também prevê a ampliação das relações com o BRICS, a implementação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o enfrentamento da emergência climática, incluindo o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).

Renan Santos (Missão) coloca a África entre os espaços prioritários para a diplomacia brasileira em sua proposta de transformar o Brasil em uma espécie de “árbitro do Sul Global”. Sua atuação na região envolveria mediação de conflitos, recursos naturais e rotas comerciais, além de uma proposta de integração lusófona com países como Angola e Moçambique.

Ronaldo Caiado (PSD) traz a África como uma das regiões com as quais o Brasil deverá “fortalecer as relações”, dentro de uma estratégia mais ampla de diversificação de mercados, parceiros, tecnologias e fontes de financiamento.

Pablo Marçal (PRTB) propõe a criação de um novo eixo geopolítico Sul-Sul e de um novo modelo estratégico de integração Brasil–África, embora seu programa não desenvolva muitas medidas além dessas diretrizes.

Augusto Cury (Avante), por sua vez, concentra sua abordagem principalmente na dimensão comercial, defendendo uma maior inserção brasileira nos mercados africanos e mecanismos de promoção comercial e diplomacia econômica.

Edmilson Costa (PCB) apresenta uma perspectiva mais voltada à cooperação econômica entre países do Sul Global e ao enfrentamento do imperialismo, propondo relações diplomáticas e econômicas com países africanos para alterar relações de dependência e promover uma articulação entre países latino-americanos e africanos produtores e exportadores de energia, petróleo e riquezas minerais.

Hertz Dias (PSTU) concentra sua política externa na luta contra o imperialismo e na defesa da soberania nacional. Contudo, em outro trecho, seu programa defende a regularização dos imigrantes de países africanos no território brasileiro.

Candidatos sem propostas específicas para a África

Flávio Bolsonaro (PL) destaca em seu programa o comércio e a negociação “com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos”. Também fala em fortalecer as relações com Argentina, Estados Unidos e Israel. Como pauta “urgente”, o texto também destaca a adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), “incluindo o fim gradual do IOF sobre o câmbio, que é condição obrigatória do processo”.

Romeu Zema (Novo) prioriza a retomada da liderança brasileira na América do Sul e o fortalecimento das relações com países do Mercosul, especialmente a Argentina. Também propõe a saída do BRICS e a entrada na OCDE, uma política migratória mais aberta, com facilitação de vistos para turistas de países considerados seguros e caminhos legais para profissionais qualificados, além de reafirmar o compromisso brasileiro com o combate ao antissemitismo e a participação na IHRA.

Sobre os demais candidatos que não trazem propostas específicas relacionadas à África, Samara Martins (UP) enfatiza a solidariedade internacionalista, a luta contra a dominação imperialista e o fortalecimento da cooperação entre países em desenvolvimento. Rui Costa Pimenta (PCO) também direciona sua política externa sobretudo ao combate ao imperialismo na América Latina e à defesa da soberania nacional, além de defender Cuba, Nicarágua e Venezuela. Clariana Barão (DC) concentra suas propostas principalmente em segurança, com destaque para o combate ao narcotráfico e ao tráfico de armas por meio de inteligência e cooperação internacional. Já Wilson Grassi (Democrata) apresenta uma agenda mais voltada a questões econômicas e de comércio exterior.

Presença desigual da África nas propostas

Ao analisar os programas de governo, o IBRAF identificou que a África aparece de forma desigual nas propostas dos candidatos. Embora sete dos 13 presidenciáveis façam alguma referência ao continente, as abordagens, em geral, não são detalhadas e variam entre uma aproximação diplomática e estratégica mais estruturada, perspectivas predominantemente comerciais e menções pontuais. Outros seis candidatos não fazem qualquer referência à África em seus programas de política externa, o que evidencia a ausência do tema nas propostas de quase metade dos presidenciáveis.

A África aparece com mais força entre candidaturas que trabalham com a ideia de Sul Global. Em outras, surge apenas como mercado e, em parte significativa dos programas, simplesmente desaparece da agenda externa.

O levantamento indica que Lula (PT), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD), Edmilson Costa (PCB), Augusto Cury (Avante) e Pablo Marçal (PRTB) fazem referências diretas à África em seus programas de política externa, embora com diferentes níveis de profundidade e abrangência. Lula, Renan, Caiado, Costa e Marçal apresentam propostas que apontam para uma relação mais estratégica e abrangente com o continente, embora a abordagem de Marçal seja bastante resumida e pouco detalhada em termos de medidas concretas. Cury, por sua vez, trata a África principalmente como parceira comercial, enquanto Hertz Dias faz uma menção pontual ao continente ao abordar os direitos dos imigrantes africanos no Brasil.

Entre os candidatos que não mencionam a África em seus programas estão Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP), Clariana Barão (DC) e Wilson Grassi (Democrata). Flávio diz que fará parcerias com todos os que interessam ao Brasil e destaca o fortalecimento das relações com Estados Unidos, Argentina e Israel. Zema fala em fortalecer o Mercosul, com menção especial à Argentina, e em se aproximar da IHRA. Costa Pimenta fala em combater o imperialismo na América Latina. Samara, Clariana e Grassi não citam nenhuma região de forma específica.

A ausência de propostas, ou sua abordagem superficial, revela que a relação com a África não é tratada como prioridade por todos os candidatos — em alguns casos, sequer há propostas específicas a respeito. As iniciativas identificadas reforçam, de modo geral, a importância de ampliar a cooperação Sul-Sul e fortalecer a presença internacional do Brasil. Ainda assim, essas formulações permanecem pouco detalhadas, sem indicar com clareza como tais objetivos seriam traduzidos em ações, metas e políticas públicas.

A importância estratégica da África para o Brasil

A África representa um espaço estratégico para o Brasil em áreas como comércio, investimentos, infraestrutura, energia, agricultura, saúde, educação e segurança alimentar. Nesse contexto, o Brasil parte de vantagens comparativas relevantes. Uma delas é a capacidade de adaptar e transferir experiências desenvolvidas em condições tropicais. Tecnologias e modelos testados e aprimorados no Brasil — particularmente em agricultura, pesquisa agropecuária, saúde e desenvolvimento de cadeias produtivas — podem encontrar aplicações em diferentes países africanos, respeitando, evidentemente, as especificidades de cada realidade nacional. Essa possibilidade de “tropicalização” de experiências constitui um ativo importante da diplomacia brasileira.

O desafio, portanto, é fazer com que a relação com a África deixe de depender de ciclos políticos e de iniciativas pontuais. Uma política externa consistente para o continente exige continuidade, planejamento e institucionalização. Países como China, Índia, Turquia, França e Estados Unidos vêm desenvolvendo, por diferentes meios e com interesses distintos, estratégias de longo prazo de aproximação com países africanos, combinando diplomacia, comércio, investimentos, financiamento, cooperação e presença institucional.

Para o Brasil, transformar a aproximação com a África em uma política de Estado significaria ir além do discurso diplomático e estabelecer programas de cooperação com metas claras, prioridades definidas, mecanismos de acompanhamento e horizonte de longo prazo. Esse é justamente um dos principais pontos ausentes nos programas analisados: há reconh

Compartilhe esse conteúdo:
Veja também